Lembro como, há coisa de 20 anos, foi festejada a aprovação do Estatuto da
Criança e do Adolescente. Diziam que era o mais avançado instrumento de defesa
da infância e adolescência no mundo. E foi observando a situação das crianças e
adolescentes da classe trabalhadora que eu entendi que não podia esperar nada
de estatuto nenhum desse Estado burguês. Por isso, não me empolguei nem um
pouco, nem com o processo e, muito menos, com a aprovação do Estatuto da
Igualdade Racial. O único caminho que enxergo para a derrota do racismo é a
luta do povo preto organizado contra o racismo, sim, mas, necessariamente,
combinada com a luta pela derrubada da sociedade de classes.
Nem tudo são flores, mas também nem tudo são espinhos. Como o tal estatuto é
bem maior do que a questão das cotas, a discussão sobre as relações raciais no
Brasil está pautada com bem mais veemência. É nessas ocasiões que muito mais
pessoas estão mais aptas a ouvir/ler e falar/escrever.
Uma das pessoas que se pronunciaram sobre o assunto, nos últimos dias, foi o
historiador Mário Maestri, em entrevista para o Correio da Cidadania. E esse
pequeno texto não é um diálogo apenas com tal entrevista, mas sim, com uma
corrente de pensamento que enxerga nas lutas pontuais do povo preto, um freio
na luta de classes.
Todo ano quando chega 20 de novembro, somos devidamente informados de que
trabalhadores brancos ganham mais que trabalhadores pretos exercendo a merma
função, e que essa diferença é ainda maior quando se compara o salário do homem
branco com o da mulher preta; nossa presença é bem maior nos cargos com menor
remuneração; nós pretos somos maioria entre os analfabetos e na massa
carcerária; somos minoria nas universidades; segundo o sociólogo Ignácio Cano,
somos 70,2%dos assassinados pela
polícia... Então, é importante sublinhar que classe trabalhadora não é tudo uma
coisa só.
Na entrevista Maestri faz distinção entre “luta anti-racismo” e “luta pela
igualdade racial”. Sobre a primeira, ele diz ser uma luta progressista,
revolucionária. A última, ele classifica como conservadora e “parte das
estratégias do capital contra o mundo do trabalho e seu programa”.
Essa é uma discussão na qual eu não quero entrar no momento. Pra mim o
importante é que no seu rol de bandeiras conservadoras ele coloca as nossas
lutas reparatórias. Na minha opinião essa é mais uma demonstração da enorme
dificuldade que a esquerda tem de entender como táticas, as lutas específicas.
Perguntado sobre a retirada do quesito “raça” do formulário de atendimento do
SUS, no maldito estatuto, Mario Maestri responde:
É enrolação estatística dizer que negros, por serem negros, são mais
desfavorecidos que brancos, por serem brancos, por exemplo, no relativo à
saúde. Comparemos os engenheiros negros e os pedreiros brancos. Nesse caso, a
saúde dos brancos é certamente pior do que a dos negros. E se cotejamos a saúde
dos médicos brancos à dos médicos negros, certamente ela será, no geral,
idêntica!
Mais abaixo ele admite a desigualdade na distribuição de pretos e brancos nas
profissões mais bem remuneradas. Porém, negando que isso seja uma questão
racial, mas sim, tão somente uma questão social, ele não tenta explicar qual
fenômeno social é esse que faz de nós maioria entre os pedreiros e minoria
entre os médicos e engenheiros.
Outro equivoco é afirmar que cotistas abandonam a luta “no aqui e no agora, do
ensino universal, gratuito e de qualidade”. Só abandona uma luta quem já esteve
nela. E quem garante ao Maestri que esses cotistas estavam engajados em alguma
luta mais ampla antes de ingressarem na universidade?Eu afirmo que não, a grande maioria, não. Não
estavam antes e nem estarão depois, se essa esquerda continuar abdicando do
trabalho de base e pregando contra as cotas.
A maioria dos trabalhadores pretos não tem noção do que seja capital, muito
menos da sua relação com o racismo. E a relação capital-racismo também é
ignorada por boa parte da esquerda (que às vezes chega a ponto de chamar nossa
luta de transversal e culturalista). O que fragmenta a luta da classe
trabalhadora não é a militância nas questões raciais, mas sim a ignorância
dessa relação, pois se sabemos que o capitalismo se fortalece, também, do
racismo. Combater um, deixando o outro intacto, é esmurrar ponta de faca.
Então, o problema maior se esconde no fato de que quem entende essa relação não
está nas bases fazendo a disputa das consciências com o Movimento Negro
burguês. E é no minuto seguinte que aparece algum intelectual da esquerda
atacando a política de cotas, que surge um militante do Movimento Negro burguês
dizendo a outros pretos e pretas:
“Viu? A esquerda é racista”.
Na era do Sim, Nós Podemos de Obama, em que a ilusão da mobilidade social ganha
contornos mais fortes de realidade, o discurso contra algo que pareça ser o
caminho que leva ao empoderamento (o saber, seja ele popular ou acadêmico,
empodera), se torna a senha que identifica o inimigo. Daí o interlocutor/a
responde: “Vi sim. A esquerda é racista mermu”.
O preto ou a preta que não sabe o que é “luta de classes” sabe muito bem o que
é ser discriminado pela suas características físicas, que são uma herança africana.
E é assim que nasce mais um reacionário no seio da classe trabalhadora. Nós,
pretos militantes comunistas, de base, sabemos a medida exata do desserviço que
causa a negligencia da esquerda para com as questões raciais, e o combate de
parte dessa esquerda às políticas reparatórias. Sem contar que o contato mais
íntimo da galera das cotas com um movimento estudantil classista gera
contradições que poderão converter as bandeiras específicas em lutas por
transformações mais radicais. Negar essa possibilidade é negar a dialética.
A esquerda, por décadas abriu mão de discutir e agir, com profundidade, sobre
segurança pública. E hoje, surpresa, não está sabendo o que fazer vendo a
principal vítima da repressão do Estado, a favela, aplaudir a presença da polícia
nessas comunidades. A ausência da esquerda nesses espaços abriu brecha pras
ONGs se instalarem e, despolitizando a questão, ficarem repetindo que o
problema do favelado era que “o único órgão do Estado a subir na favela é a
polícia”. Mas e agora que junto com esse aparelho racista de repressão
político-social e proteção da propriedade privada está subindo a creche, o
esporte, a inclusão digital etc? E agora que um dos programas de TV de maior
audiência nas favelas é justamente aquele que comemora cada pobre assassinado
pela policia (outrora reconhecida inimiga de 11 em cada 10 favelados)?
Ou a esquerda faz, urgente, essa autocrítica e assume a responsa de discutir e
atuar sobre as questões raciais - não deixando a direita se apropriar do
assunto -ou estará condenada a ficar
repetindo erros que nos deixarão cada vez mais em maior desvantagem na
correlação de forças na luta pela superação da sociedade de classes.
A propósito: Entre 182 cotistas do curso de Serviço Social da Uerj, no mínimo
uma estudante, em seu pouco tempo de atividade política conta participação em:
Comissão Organizadora do Encontro Local de Estudantes de Serviço Social
(ELESS); Ato/festa e ocupação do Diretório Central dos Estudantes (DCE) com um
apitaço que desceu do nono andar até o primeiro fazendo o maior barulho e
gritando palavras de ordem no megafone para cobrar deles que deixassem de
pelegagem e que abraçassem a causa dos estudantes e não do reitor e exigir a
ocupação todos espaços da universidade por todos e não só pelos cursos de
"elite" ligados ao reitor; mobilização entre alunos, docentee administrativo para discutir e criar meios
de barrar a minuta do HUPE (que dá brexa para a privatização do hospital
universitário) do reitor; Jornada de lutas da Via Campesina, que derrubou pés
de cana no norte fluminense, para denunciar o trabalho escravo naqueles
canaviais; construção e coordenação de atividades de formação política;
atividades de agitação e propaganda etc.
Nesse caso, ela que é moradora da Baixada Fluminense, antes de entrar pra
faculdade, passou por um trabalho político que o Coletivo de Hip Hop LUTARMADA
realiza em algumas favelas e bairros da periferia do Rio de Janeiro, e por um
pré-vsestibular comunitário. Talvez ela não fosse exceção se a esquerda fosse
mais atuante pra além dos muros dos campus universitários, escritórios,
gabinetes e avenidas do centro da cidade.