Surdo, cego e displicente. Os movimentos sociais e a visita de Lula a Belo Monte
Leia nota divulgada pelos movimentos sociais durante a visita de Lula a
Altamira (PA) para o lançamento da hidrelétrica de Belo Monte.
Um forte aparato de repressão, composto pela Força Nacional, pela Tropa de
Choque e pela polícia militar, impediu que o protesto de cerca de 400
ribeirinhos, pequenos agricultores, estudantes e professores contra a
hidrelétrica de Belo Monte chegasse ao presidente Lula esta semana, em Altamira
(PA).
O representante do governo federal, Geraldo Magela (colaborador do ministro
Luis Dulci, da Secretaria Geral da Presidência), esteve à frente das forças
policiais que bloquearam o acesso dos manifestantes ao Estádio onde Lula falou
à população. Lideranças sociais foram fichadas, houve revista pessoal e
apreensão de faixas ou qualquer material contrário a Belo Monte.
Não bastasse serem impedidos de levar suas demandas ao presidente, os ameaçados
pela usina foram publicamente humilhados, chamados de meninos, ignorantes.
Procurando comparar-se a eles, Lula afirmou que, em sua juventude, acreditou em
disparates como terremotos, mudança do clima ou do eixo do planeta, causados
pela hidrelétrica de Itaipu. “Se eles [os manifestantes] tivessem paciência
para ouvir”, disse Lula... Se ele tivesse essa paciência, saberia que os medos
da população do Xingu não são fantasiosos. São medos reais de quem está
ameaçado pela destruição de seu lar, de seu modo de vida, de suas fontes de
sobrevivência, e de toda a imensurável beleza que faz a vida valer a pena no
Xingu.
Cegado pela displicência, o presidente não viu que os rostos dos que tentaram
se fazer ouvir eram morenos, brancos, negros, vincados e queimados de sol, e
suados com o calor que tanto o incomodou. Não eram “gringos”, como disse Lula
na sua próxima parada, em Marabá.
“Nós precisamos mostrar ao mundo que ninguém mais do que nós quer cuidar da
nossa floresta”, disse Lula. Nós? O governo, que faz as obras que destroem e
atraem a destruição das matas? Não, somos nós os que sabemos cuidar da
floresta, aqueles que estamos tentando nos fazer ouvir desesperadamente. Somos
os que historicamente cuidamos da natureza, porque ela é tudo que temos.
Lula falou em R$ 4 bilhões “para cuidar do povo ribeirinho”. Isto deve nos
alegrar? Deve pagar a destruição de nossas vidas, e das vidas das futuras
gerações? Devemos comemorar e nos calar?
Esta semana no Pará, houve espaço para uma só voz, arrogante, displicente e
prepotente. Lula, o governo federal e o governo estadual, que até hoje não se
dignaram a ouvir os apelos dos ameaçados por Belo Monte, novamente ignoraram e
deram as costas aos ribeirinhos, agricultores e moradores das palafitas de
Altamira, e aos seus medos e sonhos. Novamente, a despeito da expectativa e da
ansiedade de serem ouvidos, estes cidadões tiveram a porta batida em suas
caras.
Altamira, 23 de junho de 2010.
Movimento Xingu Vivo para Sempre, Via Campesina (MAB, CIMI, CPT, PJR, FEAB,
ABEEF), MMCC, UJS, Consulta Popular, DA-UFPA, PJ, SINTEPP, Movimento Negro -
CFNTX, Pastoral da Criança, Forum Popular, SOS Vida.