Os parlamentares da comissão especial que discute
alterações no Código Florestal devem votar, no começo do mês de junho, o
relatório final de mudanças na legislação. Denunciamos que o relatório deve
atender apenas aos interesses dos ruralistas, pela ausência de um debate amplo
sobre o tema. Eles pretendem consolidar o desmatamento que já promoveram no
Cerrado, Mata Atlântica, Pampas e Caatinga e avançar na destruição da Amazônia.
O Código Florestal é uma barreira ao avanço do
agronegócio, porque impõe limites à devastação ambiental na atividade agrícola,
com a aplicação da Reserva Legal (RL) e das Áreas de Preservação Permanente
(APP). A reserva legal é de 80%, na Amazônia; 35%, no Cerrado e 20% nas outras
propriedades.
Os impactos da destruição do meio ambiente são sentidos
em toda parte, não apenas nas regiões diretamente destruídas. Exemplo recente é
a morte de mais de 200 trabalhadores e trabalhadoras das regiões mais pobres do
Rio de Janeiro, devidos às fortes chuvas que assolaram o estado no começo de
abril. As principais vítimas foram famílias que vivem em morros, pela falta de
um programa habitacional que atenda às necessidades do conjunto da população.
As consequências dos desequilíbrios ambientais recaem principalmente sobre os
mais pobres.
O desequilíbrio climático e os desastres naturais têm
raízes na forma de organização da produção na sociedade, sob hegemonia das
grandes empresas transnacionais e do capital financeiro. Essas atividades não
estão em sintonia com a natureza e debilitam os ecossistemas, para garantir uma
maior acumulação do capital.
A flexibilização da legislação ambiental, defendida
pela bancada ruralista, é de interesse do agronegócio, das empresas transnacionais
da agricultura e do capital financeiro.
O Código Florestal Brasileiro foi criado em 1934 como
forma de colocar regras na expansão da economia agrícola para as áreas de
florestas, que era estimulado pelo governo de Getúlio Vargas.
Em 1965, o Código foi reformado pelo governo militar
para colocar limites ao desmatamento que seria causado com a implementação de
seu programa de colonização da Amazônia.
Em 2001, por meio de Medida Provisória, o governo FHC
fez a última grande reforma no Código, permitindo a implantação de grandes
obras de interesse do capital. No entanto, permaneceram as exigências em termos
de áreas e percentuais em relação a Áreas de Preservação Permanente e a Reserva
Legal. Aí estão os instrumentos legais que o agronegócio quer eliminar do seu
horizonte.
O Código preserva também as áreas ao longo dos rios ou
de qualquer curso d´água; ao redor de lagoas, lagos ou reservatório d´água
naturais ou artificiais; no topo de morros, montes, montanhas e serras e em
atitude superior a 1800 metros, qualquer que seja a vegetação.
O Código Florestal se manteve vivo até agora por conta
da luta dos brasileiros que defendem o meio ambiente e a natureza, que é um bem
estratégico do povo. Mesmo assim, embora esteja na lei, nunca foi respeitado
pelos governos nem pelo agronegócio.
Até agora, o setor ruralista age da seguinte forma:
ignora as determinações do Código Florestal para derrubar as florestas; quando
são pegos com a motosserra na mão, culpam a rigidez da legislação em vigor e,
por fim, mobilizam seus parlamentares para derrubar esses
"obstáculos".
A Via Campesina definiu propostas para um profundo
programa ambiental para o campo brasileiro. Antes de qualquer medida,
defendemos a manutenção do Código Florestal, que deve ser cumprido de forma a
implementar uma agricultura camponesa sustentável. Fazemos parte da campanha
pelo "Desmatamento Zero" para interromper a devastação florestal
imediatamente. Para as áreas de Reforma Agrária, propomos aos governos um
programa amplo para reflorestamento com árvores nativas, a construção de
agroflorestas e um programa de Educação Ambiental.
Os interesses dos ruralistas para passar seus tratores
sobre as florestas e criação CPMI contra a Reforma Agrária são dois lados da
mesma moeda. Enquanto trabalham duro na flexibilização da legislação ambiental,
para expandir imediatamente o capital sobre o nosso território, mantêm um
instrumento político eficiente para fazer a luta ideológica contra os
movimentos sociais, paralisar a Reforma Agrária e impedir qualquer resistência
ao seu projeto para a agricultura brasileira.
Estamos nos articulando com outros movimentos sociais e
ambientalistas para impedir que mais essa manobra contra o meio ambiente seja
aprovada pelos setores conservadores. Defendemos a integração entre as
florestas e a produção de alimentos saudáveis para a população do país.