Tony Cliff foi o fundador da Tendência Socialista Internacional (IST), uma tendência que agrupa atualmente organizações revolucionárias em mais de 30 países (como o coletivo Revolutas no Brasil). Após 10 anos de sua morte, queremos relembrar alguns aspectos de sua vida e trajetória como um revolucionário perseverante. Tamara Ruiz Ygael Gluckstein (o nome real de Tony Cliff) nasceu na Palestina em 1917, no seio de uma família judia de classe média, que procedia da parte russa da Polônia que imigrou para a Palestina em 1902. Tanto seus pais como seus tios eram sionistas, isto é, pessoas que acreditavam, acima de tudo, na necessidade de construir uma nação própria para todos os judeus. Palestina Para Cliff, a segregação existente entre judeus e árabes em sua Palestina natal foi um elemento-chave para o despertar de sua consciência política. Em suas memórias, destaca que o que o motivou a tornar-se socialista tão cedo foram as condições horríveis nas quais viviam as crianças e os jovens árabes na Palestina. Em sua fuga da ideologia familiar, decidiu aos 13 anos mudar seu nome de Ygael, com o qual foi batizado em homenagem a uma espécie de herói sionista que assassinou vários árabes, por Ygal. Desde os 14 anos, Cliff militou no socialismo sionista. A organização defendia a unidade entre os trabalhadores judeus, mas rechaçava as alianças entre estes e a classe trabalhadora árabe, com posições claramente racistas para uma organização que se considerava socialista. A ruptura com o sionismo de esquerda fará com que Cliff progressivamente se aproxime do pensamento socialista dissidente. A leitura dos textos de Trotsky sobre a luta contra o fascismo internacional proporciona-lhe uma nova orientação. Ele, junto com um grupo de companheiros que se autodenominavam trotskistas, acabam sendo expulsos do partido em 1938 após ler publicamente uma declaração contra o imperialismo e o sionismo. A partir de então, dedicam todos seus esforços à construção de uma organização trotskista na Palestina. Publicam um jornal em árabe e outro em hebraico, além de panfletos em inglês dirigidos às tropas britânicas. Em 1945, conhece Chanie Rosenberg que seria sua companheira desde então e com quem compartilharia toda uma vida dedicada à construção de uma organização revolucionária. Em 1946, aproveitam uma oportunidade que lhes surge para ir a Londres e decidem mudar-se para lá. A partir daquele momento, a vida política de Cliff e a de Chanie vão concentrar-se principalmente na Grã-Bretanha, onde adotará o pseudônimo de Tony Cliff. Distanciamento da IV Internacional Para Cliff, a relação dialética entre a teoria revolucionária e a atividade política era um ponto-chave. Segundo ele, não importava o tamanho inicial das forças do socialismo revolucionário. Estas não podiam se desenvolver sem uma clara compreensão da natureza fundamental do sistema que enfrentavam. Esta relação entre a teoria e a prática revolucionária foi o que o levou a desenvolver suas principais teorias. Assim, por exemplo, o sentimento de mal-estar que teve ao ler as resoluções da Pré-Conferência Internacional da trotskista IV Internacional em 1946, nas quais a descrição que se fazia do mundo era bastante diferente da verdadeira realidade, levou-o mais tarde à busca de uma análise não-dogmática e conseqüente do que realmente ocorria. Nestas resoluções, utilizava-se a análise de Trotsky anterior à II Guerra Mundial para descrever a situação do capitalismo internacional, conduzindo a grandes distorções. Não entendia porque os líderes teóricos da IV Internacional se agarravam de forma cega aos escritos de Trotsky sobre o suposto colapso do capitalismo e a crise do regime stalinista da URSS. Para Cliff, a honestidade era fundamental. Revolucionárias e revolucionários deviam dizer a verdade, fosse boa ou ruim, já que sem uma explicação honesta da realidade era impossível orientar-se de forma adequada diante de uma determinada situação. Nesse momento, Cliff não tinha uma explicação dos motivos por que o mundo mostrou-se tão diferente depois da II Guerra em relação às previsões feitas por Trotsky, motivo pelo qual dedicou muito tempo e esforço nos anos seguintes para desenvolver três teorias interrelacionadas que deram resposta a essa realidade: o capitalismo de Estado, a economia armamentista permanente e a revolução permanente desviada. Ao chegar em Londres em 1946, Chanie e ele uniram-se ao trotskista Partido Comunista Revolucionário (RCP). As diferenças com a direção do RCP aprofundaram-se com o golpe de Estado que teve lugar na Checoslováquia em 1948 e estabeleceu um regime autoritário. Apesar do RCP criticar duramente a falta de democracia do regime stalinista, ao mesmo tempo defendia o golpe de Estado como um grande triunfo para o proletariado. Sua ruptura com o RCP deu-se de forma definitiva quando publicou o documento "A natureza de classe da Rússia stalinista", em junho de 1948, que supunha a rejeição da definição de Trotsky sobre a Rússia como um Estado operário degenerado. Construindo o Socialist Review Group e a International Socialists A partir de 1950, fora da IV Internacional, Cliff começaria a construir o Socialist Review Group (SRG) junto com alguns companheiros do já extinto RCP que haviam sido expulsos por apoiar a teoria de Cliff sobre o capitalismo de Estado. Durante os anos 50, o SRG era um grupo puramente propagandístico que não tinha capacidade de intervir significativamente na luta de classes. Nessa época, o grupo decidiu entrar no Partido Trabalhista. A decisão deu-se por uma questão puramente tática, devido à inexistência de outro espaço em que poderiam crescer como organização, já que nunca tiveram nenhuma expectativa de tornar o Partido Trabalhista um partido revolucionário. No início dos anos 60, o SRG, que passaria a se chamar International Socialists (IS), continuava sendo um grupo muito pequeno, mas as coisas mudaram drasticamente. Ao contrário dos dirigentes e intelectuais de outras organizações socialistas, Cliff e sua organização entenderam rapidamente a importância do movimento estudantil que emergia e houve um razoável crescimento da organização. Seguindo a experiência dos bolcheviques e as análises de Lenin, Cliff defendeu a aposta no centralismo democrático como forma organizativa vencendo o debate no interior da organização. O centralismo democrático permitia um debate aberto e dava a coesão necessária a uma organização revolucionária. Após a vitória do Partido Conservador nas eleições gerais britânicas de 1970, o ataque generalizado contra a classe trabalhadora provocou uma ampliação da atividade e da luta dos trabalhadores com a mescla de elementos políticos e econômicos. Os trabalhadores começaram a pensar em termos de classe ao invés de limitar suas lutas e reivindicações aos seus locais de trabalho. Isto deu um impulso massivo aos núcleos de base construídos pela IS. Jamais houve outros momentos em que os trabalhadores estiveram tão abertos à política da IS como no período entre 1970 e 1974, o que contribuiu em parte para o processo de generalização da consciência de classe. Os trabalhadores, como insistia Marx, estavam mudando no transcorrer das lutas. Nesses anos, a International Socialists cresceu rapidamente, passando de 880 membros em 1970 para mais de 2.350 membros em 1972, superando os 3.300 em 1974. O SWP e a Tendência Socialista Internacional (IST) Em 1974, o Partido Trabalhista ganhou as eleições gerais britânicas e introduziu o Contrato Social. Tratava-se do maior corte de salários desde o fim da II Guerra Mundial, obtido com a cumplicidade das burocracias sindicais. Isto, junto com o aumento massivo do desemprego, provocou um descenso da confiança dos trabalhadores na luta. As expectativas em torno tanto do movimento como do crescimento da organização continuavam sendo altas. Mas o verdadeiro problema não foi o equívoco nessas previsões, e sim a demora na mudança de orientação. Tony Cliff foi um dos primeiros a perceber as conseqüências do descenso geral das lutas. Inicialmente, poucos apoiaram sua posição, e passaram-se dois anos até que o resto da organização concordasse que estava havendo um descenso do movimento. Em 1977, o grupo mudou novamente de nome, de International Socialists para Socialist Workers Party (SWP), como se chama atualmente. Em português, Partido Socialista dos Trabalhadores. No contexto do final dos anos 70 e dos anos 80, o retrocesso da luta de classes fez com que surgissem outros movimentos sociais (movimento ambientalista, movimento feminista, luta contra o fascismo etc.). Mesmo que o SWP tenha impulsionado e participado destes movimentos, Cliff destacou a importância de que a organização revolucionária se mantivesse organizativamente independente para evitar a dinâmica de ascenso e descenso que os movimentos estavam inevitavelmente sujeitos. Coerente com as posições internacionalistas do marxismo, era imprescindível que o SWP estivesse vinculado a um plano de atuação de caráter global, pelo qual Cliff, durante os últimos anos de sua vida, também dedicou parte de sua militância à orientação teórica e prática dos diferentes grupos receptivos às posições do SWP que surgiam em outros países. Nos anos 90, é constituída a Tendência Socialista Internacional (IST). Foi um longo caminho da construção de um pequeno grupo de 30 pessoas na Palestina até a fundação de uma corrente socialista revolucionária internacional com milhares de militantes. Um caminho percorrido com base em uma análise honesta, concreta e não-dogmática da história e da realidade e em uma prática política baseada solidamente nesta reflexão. Sempre admitiu os erros cometidos e confiou na democracia organizativa e na discussão e ação coletivas como mecanismos para evitar desvios. Junto com outros intelectuais e militantes do SWP, Cliff foi um dos primeiros da esquerda internacional a perceber o que os anos 90 traziam consigo. Estava surgindo um novo movimento de oposição global ao capitalismo, após a longa depressão e a ofensiva neoliberal dos anos 80. Acertadamente, defendeu uma orientação voltada para o impulsionamento das lutas contra a globalização capitalista, estando firmemente comprometido com a construção de organizações revolucionárias que incidiram neste novo cenário até o final de sua vida no ano de 2000. Tradução: Henrique Sanchez A partir da página eletrônica da organização espanhola En Lucha, integrante da Tendência Socialista Internacional (IST): http://www.enlucha.org/?q=node/2064 |