Os recentes fatos relacionados à crise interna do PSOL, incluindo o seqüestro do site do partido – assumido por algumas das figuras mais conhecidas do PSOL, incluindo Heloisa Helena – mergulhou o partido numa crise política sem precedentes. Tamanha é a gravidade da crise que muitos militantes temem que a própria continuidade do projeto partidário esteja em risco. Tal preocupação é plenamente justificada, pois o acirramento da luta interna chegou a um ponto em dificilmente podemos vislumbrar um acordo. E sem uma saída política para a atual crise, o projeto do PSOL de fato pode chegar ao fim.
Contudo, é muito importante assinalar que esta crise não é um raio no céu azul. No II Congresso Nacional do PSOL presenciamos também uma situação de tensão interna que se expressou na retirada do Congresso, por algum tempo, de cerca de 40% dos delegados. Uma situação que impediu até mesmo a aprovação de uma resolução política sobre a conjuntura. E não por acaso, as forças políticas eram as mesmas que efetivaram o seqüestro do site do partido. E logo após o Congresso tivemos a crise deflagrada em torno de uma eventual aliança com Marina Silva. Sem discussão ou consulta e ao arrepio de qualquer instância partidária, a companheira Heloisa Helena defendeu publicamente o apoio à senadora do PV. Em seguida, as notícias pelos jornais ou pela Internet nos mostravam que esse apoio ganhava força na direção do partido. Somente após dois meses é que a militância teve um informe oficial.
Durante esse tempo a militância do partido, perplexa e perdida, realizava um debate sem informações confiáveis, contando apenas com a mídia e com boatos.
Se retrocedermos mais ainda, veremos que há uma sequência de crises políticas que passaram a ocorrer desde a fundação do partido. Crises decorrentes de métodos anti-democráticos e burocráticos, de lutas internas que em vez de consolidar uma unidade, serviram para fragmentar ainda mais o partido e instaurar relações internas baseadas não no companheirismo e fraternidade, mas na desconfiança e confronto permanente. Certamente, nenhum caso chega perto dos eventos recentes em termos de gravidade. Mas mais uma vez enfatizamos: todas essas crises e acontecimentos não são um raio no céu azul. A crise atual é o auge de um processo de crises e lutas internas que teve início logo após a fundação do partido. E sobre isso nenhuma das forças políticas que integraram a Executiva Nacional, desde a sua fundação, pode ser eximida de responsabilidade. Todas as correntes que participaram das composições da Executiva Nacional, em algum momento, ou foram coniventes ou tiveram responsabilidade direta, ou ainda, fizeram vista grossa diante de atos e decisões antidemocráticas e equivocadas tomadas pela Executiva Nacional ou pelas forças que a compunham.
Temos presenciado a transformação do partido em um condomínio das grandes tendências, em que militantes independentes ou pequenos coletivos não tenham voz nem vez. Em que a disparidade numérica é acompanhada por uma disparidade de recursos materiais, como vemos em todas as eleições. Em que as informações são centralizadas e monopolizadas pelas grandes correntes. Em que a disputa pelo controle das instâncias assumiu formas extremas e virulentas, e para muitas correntes se tornou um fim em si. Em que o debate político é quase que mero ritual, pois inexiste predisposição para um intercâmbio sincero de opiniões e muito menos para aceitar outras opiniões. Uma situação em que convivem concepções e práticas radicalmente distintas, e sobre isso basta lembrar aqueles setores do partido que defendem e praticam uma concepção de partido de militantes e aqueles que são adeptos do partido de filiados.
Tal é a situação do partido que, com raras exceções, não há relações fraternas nem mesmo entre correntes aliadas.
Que é preciso que a Executiva tome ações concretas diante do seqüestro do site e demais eventos que lançaram o PSOL na sua maior crise, é ponto pacífico. Que é preciso respeitar as instâncias e normas estatutárias e garantir a realização, com lisura e caráter soberano, da Conferência nacional em abril, está mais do que claro. Que é preciso construir uma saída política para a crise atual do partido, se quisermos que o projeto do PSOL tenha continuidade, nos parece óbvio. Mas é preciso ir além. É preciso superar qualquer concepção maniqueísta que separe entre "bons" e "maus", "mocinhos" e "bandidos". A dimensão da crise não é somente ética, mas política. Envolve a própria concepção do partido que se quer construir, a tática de construção partidária, os métodos e mecanismos capazes de garantir um processo de construção de sínteses e ampliação e consolidação da unidade.
As divergências de estratégia e tática são, evidentemente, de enorme importância, mas hoje são secundárias diante das questões que envolvem a atual crise partidária. Afinal, sempre afirmamos que a diversidade política é um fator de riqueza que pode ser fundamental para a construção de um partido de novo tipo, anticapitalista e socialista, com firmeza de princípios e amplitude política, capaz de dialogar com os vários movimentos sociais e setores da sociedade. Que seja a antítese do PT e dos PCs que compõem a base governista, mas também radicalmente distinto, na teoria e na prática, de partidos de esquerda que se caracterizam pelo sectarismo e pela postura autoproclamatória. Mas para isso é preciso modificar a estrutura organizativa, a forma de funcionamento, as relações internas, rever as próprias normas estatutárias. E modificar os métodos de direção e reconstituir as relações internas com base em princípios coerentes com a democracia. E, principalmente, reconstruir o partido resgatando os núcleos como centro de gravidade política do partido.
Não temos dúvida de que, qualquer que sejam os desdobramentos desta crise, será necessária a realização de um Congresso do partido. Que deve ser marcada na própria Conferência Nacional Eleitoral a ser realizada em abril.
Nas próximas semanas o futuro do nosso partido está em jogo. Cabe colocar o debate em outro patamar político, se quisermos construir uma saída. |