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Chile: tremores do passado

Os terremotos são eventos que expõem o que está escondido em uma sociedade. São crises que revelam o melhor e o pior das pessoas.

 

Este foi certamente o caso no recente terremoto no Chile - o quinto maior da história, com 8,8 graus na escala Richter. Além disso, foi seguido por um tsunami gigantesco que envolveu vilas de pescadores ao longo da costa.

 

O terremoto chileno foi muito maior do que o que destruiu capital do Haiti, Porto Príncipe, há dois meses e afetou uma área muito maior.

 

Ainda não está claro quais serão os efeitos a longo prazo deste tremor devastador. O número de mortos é muito menor do que no Haiti, em torno de mil. Mas cerca de um milhão e meio de casas foram danificadas, 500 mil delas de forma irreversível.

 

Na cidade de Lampa, o terremoto causou um incêndio em três fábricas de plástico, que lançou uma nuvem química.

 

Estes são os fatos, ou pelo menos alguns deles. Terremotos são agressões da natureza – e o Chile é particularmente vulnerável a eles. Mas as conseqüências terríveis são obra do ser humano.

 

Existe um ar familiar em muitas coisas que aconteceram desde o grande terremoto de 27 de Fevereiro.

 

A resposta inicial do governo de Michelle Bachelet foi lenta e hesitante. Demorou dias para comida e água chegarem às pessoas afetadas.

 

Ao mesmo tempo, o governo também rejeitou ofertas de ajuda imediata do México, Taiwan e outros lugares.

 

Necessidades imediatas das pessoas depois de um desastre são para o básico para sustentar a vida - alimento, água e abrigo. Quando não estão próximas, as pessoas vão agir por si mesmos.

 

Repórteres de várias agências internacionais de notícias estavam nas áreas devastadas em menos de 24 horas. O sistema oficial de comunicações, no entanto, pareceram ser menos eficientes.

 

A Marinha chilena, por exemplo, não conseguiu divulgar um alerta de que um tsunami tinha sido previsto. Após o evento, a Marinha alegou ter enviado um fax!

 

Epicentro

 

Quando a ajuda não se concretizou, as pessoas fizeram justiça com as próprias mãos. Muitas delas devem ter notado que as áreas ricas de Santiago tinham eletricidade e serviços telefônicos restabelecidos quase que imediatamente.

 

Enquanto isso, os bairros me que mora a classe trabalhadora tiveram que esperar uma semana.

 

Os supermercados que não foram destruídos em lugares como a cidade de Concepción, perto do epicentro do terremoto, imediatamente aumentaram seus preços.

 

As pessoas reagiram com raiva, como seria de esperar, e levaram aquilo de que precisavam de supermercados como Líder.

 

Wal-Mart, a multinacional com o segundo maior volume de negócios no mundo (depois Exxon Mobil), é proprietária do Líder.

 

O que era apenas busca por alimentos foi transformado em "saques" na atmosfera tensa do desastre. E justificou a declaração de lei marcial - tal como aconteceu no Haiti. Os militares se mobilizaram não para trazer ajuda, mas para proteger lojas e propriedades.

 

Há relatos de tropas reprimindo pessoas que estavam "saqueando", com bombas de gás lacrimogêneo e canhões de água em Concepción.

 

As tropas atacaram pessoas tentando abrir um contêiner que acreditavam estar cheio de bananas, açúcar e óleo, na cidade de Talcahuano.

 

Parece ter havido muito menos de solidariedade social no Chile do que no Haiti. Pode-se argumentar que isso aconteceu porque já não havia muita coisa por que lutar no Haiti.

 

Mas há razões mais profundas, que têm a ver com a história recente do Chile. Esta não é a primeira vez que os militares tomaram o controle do país.

 

Em 1973, eles assumiram o poder com um golpe militar liderado por Augusto Pinochet, que derrubou o governo de esquerda de Salvador Allende, eleito democraticamente.

 

A lei marcial já havia sido declarada em algumas áreas, antes de o golpe ocorrer. Com os militares no poder, foi estabelecido um estado de terror contra a população.

 

O movimento sindical combativo foi esmagado. A esquerda foi destruída através de assassinatos, torturas e exílio. As reformas sociais que o governo Allende havia feito foram revertidas.

 

Criaram-se as condições perfeitas para a primeira experiência em economia neoliberal.

 

A economia foi aberta ao investimento estrangeiro. As empresas multinacionais transferiram sua produção para o Chile, onde os sindicatos foram proibidos e o preço da força de trabalho era baixo.

 

O regime de Pinochet privatizou a economia. Aposentadorias e pensões, por exemplo, foram tiradas das mãos do Estado. Um sistema de previdência privado foi criado para garantir enormes lucros para os investidores. Mais tarde, o sistema também se revelou fraudulento.

 

Saúde e educação foram privatizadas. A água era vendida para as empresas que a usavam para a mineração e, em seguida, retornava contaminada para o abastecimento público.

 

Houve um boom na construção civil nos últimos 20 anos. Mas segundo os moldes neoliberais, sob controle de poucos agentes do mercado e em meio a um lucrativo comércio de certificados de construção.

 

As casas novas não iam para pobres ou trabalhadores, mas para as classes média e alta, que saboreavam os frutos do regime de mercado de Pinochet.

 

A tragédia do Chile é que os governos que vieram depois que Pinochet deixou o cargo em 1990, não levaram o ex-ditador aos tribunais. Nem mexeram na grande fortuna que sua família havia reunido.

 

Um democrata-cristão (Eduardo Frei, que apoiou a derrubada de Allende) e dois presidentes socialistas posteriores (incluindo a própria Bachelet) nunca desafiaram o modelo neoliberal. Ao contrário, fizeram tudo para mantê-lo.

 

A rápida imposição da lei marcial por Bachelet e sua relutância em aceitar ajuda externa, pode ter algo a ver com o que o terremoto está revelando.

 

Relutância

 

A tragédia mostrou que a experiência econômica chilena, defendida pelos defensores do livre mercado, tem sido um sucesso para muito poucos. A maioria dos chilenos continua lutando para sobreviver.

 

Os chilenos têm que pagar por serviços de saúde e educação. Sobrevivem com um salário médio que representa pouco mais de 30% do custo de uma cesta básica.

 

Bachelet afirmou ser um dos novos presidentes esquerda que chegaram ao poder na América Latina na última década.

 

Houve algum movimento em torno dos direitos humanos e alguns torturadores de Pinochet foram finalmente levados aos tribunais. Mas a presidente chilhena se distanciou dos desafios mais radicais ao mercado global feitos por Hugo Chávez na Venezuela, e Evo Morales na Bolívia.

 

Este é o pano de fundo do terremoto chileno. É de se admirar que os trabalhadores do Chile, reagiram com fúria a falhas do Estado?

 

A declaração de lei marcial e a imposição de um toque de recolher servirão apenas para lembrá-los da época de Pinochet.

 

Este "novo" Chile foi construído sobre os túmulos daqueles que lutaram por uma sociedade mais justa durante os curtos anos de governo da Unidade Popular, de Allende.

 

E agora, o governo está propondo uma coleta de recursos para as vítimas através de um show promovido pelos meios de comunicação privados. Nenhuma ação no sentido de obter recursos dos ricos, que têm lucrado com a longa bonança do Chile.

 

Há aqueles na esquerda que dizem que a solidariedade que os chilenos têm mostrado em suas lutas políticas tem sido menos visível em momentos de catástrofe.

 

Mas a desilusão é consequência de 30 anos de traição por parte daqueles que afirmam falar por eles.

 

O golpe final é que Sebastián Piñera está assumindo a presidência do país. Trata-se do homem mais rico do Chile. Sem dúvida, ele e seus amigos neoliberais em todo o mundo comemoram os enormes lucros que serão obtidos na reconstrução das cidades afetadas.

 

Para a maioria dos chilenos, os tempos que virão serão duros. Mas a reflexão sobre sua própria história de luta corajosa e consistente pode oferecer alguns exemplos de organização, solidariedade e esperança para o futuro.

 

Socialist Worker - 13 March 2010 | issue 2192

 


   
 
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