Campanha pela libertação imediata dos presos políticos do MST
10 de
fevereiro de 2010
A luta
social e, notadamente, a luta pela reforma agrária voltam a ser fortemente
criminalizadas. Em destaque outra vez uma investida pesada contra o MST. Neste
momento, dezenas de Sem Terra estão presos em várias cidades do país, e outros
tantos foram condenados a penas altíssimas pelo simples fato de buscarem terra
para sobreviver e produzir – uma ação que o próprio Superior Tribunal de
Justiça já decidiu não configurar os delitos de “esbulho possessório” e
“formação de quadrilha”, pelos quais muitos dos militantes têm sido acusados.
A
ofensiva, articulada entre os grandes meios de comunicação, latifundiários,
agronegócio, diversos setores da Polícia e do Poder Judiciário, mostra-se mais
evidente com novas repressões e prisões de trabalhadores em São Paulo e em
Santa Catarina. Elas vêm a aprofundar um cenário de criminalização que já
estava bastante grave em outros estados (como o Rio Grande do Sul, Pará e
Pernambuco, dentre outros). Medidas repressivas que se somam e se articulam
também, milimetricamente, com o início dos trabalhos de mais uma “CPMI do MST”
(como assim deseja a grande imprensa), a qual, por sua vez, tem sido usada pela
bancada ruralista e por outros setores reacionários como um grande palco e
verdadeiro instrumento para as disputas eleitorais de 2010, que já estão a todo
vapor no Brasil inteiro.
A
intensificação da criminalização e da estigmatização do MST, bem como a
tentativa forçada de vinculação do MST com grupos, candidatos e partidos
políticos, visam, portanto, não apenas a repressão contra os militantes sociais
que lutam por terra e dignidade, mas pretendem confundir e mistificar a opinião
pública brasileira, atentando contra a frágil democracia do país.
Estado de
São Paulo
O estado
de São Paulo é um dos lugares onde a situação é mais grave e escandalosa neste
momento. No dia 25 de janeiro, a polícia iniciou um cerco aos assentamentos e
acampamentos da reforma agrária na região de Iaras, interior do Estado,
portando mandados de “busca, apreensão e prisão”, com o intuito de intimidar,
reprimir e prender militantes do MST. Nove militantes assentados e acampados
foram detidos e levados para a delegacia de Bauru – de onde foram espalhados em
diferentes prisões da região, para dificultar o seu contato e sua assistência.
Dentre eles encontram-se o ex-prefeito de Iaras-SP, Edilson Granjeiro Xavier, e
a atual vereadora pela cidade, Rosimeire Pan D'Arco de Almeida Serpa, ambos do
Partido dos Trabalhadores (PT). A tentativa de uso eleitoreiro da situação é
evidente, já que os próprios “investigadores” ligados ao caso assumem que não
tomam qualquer atitude sem o total conhecimento do Secretário de Segurança
Pública do Governo de São Paulo, da gestão José Serra.
De lá pra
cá, num processo obscuro, cheio de arbitrariedades políticas e fragilidades
jurídicas, mais de 50 militantes do MST já foram indiciados; 20 militantes
tiveram suas “prisões preventivas” decretadas; e 7 militantes já seguem presos,
sem previsão de soltura. Além disso, outros processos antigos contra militantes
do MST, em diversas regiões do estado – como Campinas, Ribeirão Preto, Pontal e
o Vale do Paraíba -, têm sido ressuscitados numa incrível “coincidência”.
Apenas no Vale do Paraíba há mais 11 militantes condenados, sendo que dois
(Eulino Oliveira - Seu Lino - e Luciano Correia) já presos cumprindo penas de
mais de 6 anos de reclusão. Há a possibilidade de mais detenções e outros tipos
de repressão no estado.
No caso
específico e emergencial de Iaras, tal repressão é o aprofundamento de todo um
processo de criminalização e perseguição que foi acelerado a partir do circo
espetacularmente armado pela grande imprensa (sobretudo via Rede Globo), e dos
desdobramentos políticos ocorridos por ocasião da ocupação da Fazenda Capim,
uma imensa área grilada pela transnacional Sucocítrico Cutrale. O MST
reivindica há anos para a reforma agrária aquelas áreas públicas do Complexo
Monções, comprovadamente griladas da União por esta poderosa empresa do
agronegócio. É lamentável que, ao invés de se acelerar o processo de reforma
agrária e a democratização do uso da terra, mais uma vez o que se tem é ainda
mais arbitrariedade, repressão e violência – tão acelerada quão vagaroso tem
sido o Estado para recuperar terras públicas e desapropriar terras devolutas
para fins de reforma agrária e democratização do acesso à terra.
Num clima
de terror, além de prenderem militantes de Iaras-SP, os policiais cercaram
casas e barracos, amedrontando as famílias e também apreendendo pertences
pessoais. Tudo isso com o objetivo de forjar provas contra os agricultores,
induzindo que os objetos teriam sido roubados durante a ocupação de outubro de
2009 às terras griladas pela Cutrale. O curioso é que, passados mais de 4 meses
desde a ocupação e dos fatos ditos criminosos, o delegado da Polícia Civil já
ouviu mais de 47 pessoas entre funcionários e ex-funcionários da Cutrale e
integrantes do MST (acampados e assentados) na região de Iaras, que
participaram da ocupação. Só não diligenciou para ouvir os 20 investigados
acima referidos. Em relação ao comprovado grilo feito pela transnacional às
terras públicas, obviamente nenhuma apuração ou medida concreta foi tomada.
Outro
elemento grave é que o juiz que assinou o despacho prisional se valeu de
hipóteses, conjecturas e subjetivismo pessoal, articulados pelo delegado e endossados
pelo Promotor de Justiça, para decretar a prisão temporária dos investigados,
por cinco dias, já prorrogada por tempo maior. A "justificativa" é a
de que, se as 20 pessoas continuassem soltas, poderiam atrapalhar as
investigações, visto que são “perigosas, violentas, que exercem influências
sobre os demais Sem Terra e que causam temor e medo às pessoas e, que por serem
do MST, podem facilmente se esconder num lugar ou noutro”. Ocorre que, em
quatro volumes de inquérito, não existe uma prova sequer que respalde o
entendimento destas três autoridades oficiantes nos autos. Isso mostra a
ilegalidade dos decretos de prisão. Já contra a bilionária transnacional
Cutrale, que há mais de 5 anos é acusada e investigada por prática de cartel no
setor de laranjas e que se beneficia das piores formas de utilização de
agrotóxicos e venenos, bem como de relações trabalhistas absolutamente
precárias, gerando prejuízos e destruição para centenas de milhares de
trabalhadores rurais, nenhuma medida tem sido tomada, muito menos seus
bilionários proprietários são considerados “perigosos, violentos” para a
sociedade brasileira.
O fato é
que as prisões dos Sem Terra não encontram motivação fática, estão desgarradas
das exigências legais, não atendem aos ditames da Justiça e sim ao ego de quem
as requereu, de quem as endossou e de quem as decretou, pois, com elas,
passaram a ganhar notoriedade e evidência na mídia, principalmente na Rede
Globo (via sua afiliada local, TV TEM). Emissora esta que, diferente do
tratamento dado aos advogados dos trabalhadores – os quais deveriam ter
constitucionalmente assegurados a ampla informação sobre os autos -, sempre tem
em primeira mão, em questão de minutos, o que se passa nos autos do inquérito.
E mais grave: muitas vezes tem obtido com antecedência informações que deveriam
ser sigilosas e restritas à Justiça. Medidas que, longe de serem
imprescindíveis para o curso das investigações criminais e para a informação da
opinião pública, são para atender as vontades políticas dos latifundiários, do
agronegócio e da elite local, avessos à efetivação da reforma agrária na
região.
Os
advogados dos trabalhadores estão tentando, com muita dificuldade, acompanhar a
situação e obter informações sobre os processos – pois a polícia não tem
assegurado plenamente o direito constitucional às partes da informação sobre os
autos e, principalmente, sobre as prisões.
Santa
Catarina, Rio Grande do Sul, Pará, Pernambuco...
Em
Imbituba (SC), Altair Lavratti, um dos coordenadores do MST catarinense, foi
preso no dia 28 de janeiro. Cerca de 30 policiais militares efetuaram a “prisão
preventiva” no momento em que o dirigente do MST realizava uma reunião pública,
num galpão de reciclagem de lixo da cidade. A acusação é de que Lavratti, junto
com outros sindicalistas e militantes sociais, preparava uma ocupação de terras
na região. À exemplo de outros lugares, foi levado sob a alegação de “formação
de quadrilha”. Outras duas pessoas também foram detidas, sendo que uma delas,
Marlene Borges, presidente da Associação Comunitária Rural, está grávida. Ela
teve a casa cercada na madrugada do dia 28/01 e foi levada para Criciúma (SC).
Outro militante, Rui Fernando da Silva Junior, foi levado para Laguna (SC).
A nosso
ver, trata-se claramente de um novo “balão de ensaio”, semelhante aos que já
têm sido feitos em estados como o Rio Grande do Sul – onde o Ministério Público
regional chegou a listar, em atas de reuniões, uma série de estratégias visando
a “dissolução do MST” -, bem como nos estados do Pará – região que teve, entre
1982 e 2008, mais de 680 trabalhadores rurais assassinados segundo a Comissão
Pastoral da Terra (CPT), e praticamente nenhum latifundiário julgado ou punido
- e de Pernambuco – que tem vivenciado um aumento significativo no número de
prisões e assassinatos de trabalhadores rurais e militantes sociais Sem Terra.
Em todos estes estados, a exemplo das montagens recentes de São Paulo, a grande
mídia tem se especializado em retratar o constitucional direito à reunião e
organização popular para reivindicação de direitos, em crime e baderna. Para
isso atuando cada vez mais descaradamente de mãos dadas com a polícia e com as
elites locais, para forjar “reportagens”, “provas” e “escândalos” que são utilizados
para intensificar a criminalização e estigmatização dos lutadores sociais e da
população mais pobre de forma geral, descritos como “baderneiros”, “bandidos” e
“terroristas”. Contribuindo assim, de forma absolutamente ilegal e
irresponsável, para o aumento da tensão no campo.
Criminalização
e Direitos Humanos
Um quadro
terrível que apenas ratifica a crescente criminalização dos pobres e dos seus
movimentos sociais em todo o país, a qual vem sendo amplamente denunciada e
detalhada por centenas de organizações sociais, sindicatos de trabalhadores e
trabalhadoras, fóruns sociais, meios de comunicação independentes, movimentos
populares, e militantes de direitos humanos de forma bastante ampla.
Um
cenário que apenas reforça a urgência da aprovação e implementação integral do
Programa Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3), assinado por dezenas de
Ministros e pelo próprio Presidente da República, o qual prevê uma série de
medidas e avanços importantes no sentido de amenizar as violências e garantir os
direitos humanos fundamentais à sociedade brasileira e a sua incipiente
democracia. E que, no caso específico dos conflitos rurais, orienta para a
criação de novos mecanismos de mediação prévia antes da concessão de liminares
de reintegração de posse e de mandados de prisão no meio rural brasileiro, com
o intuito de diminuir a violência contra trabalhadores rurais.
Outro
elemento importante, que corrobora com esse quadro de violência e
criminalização agravado no campo brasileiro, está relacionado ao fato do
governo Lula não ter cumprido a meta (já rebaixada) de reforma agrária que
fizera, e ainda não ter tido a coragem de determinar ao Ministro da Agricultura
Reinhold Stefanes – representante do latifúndio no seu Gabinete – que assinasse
a instrução de atualização dos Índices de Produtividade – por sua vez,
assegurada pelo Presidente em 2009, também prevista e reiterada no PNDH-3.
Solidariedade
e Liberdade
Trata-se
de uma situação emergencial, vivida agora com mais violência pelo Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e seus militantes, mas que tem motivações
e estratégias muito semelhantes àquelas utilizadas contra militantes sindicais
nas suas greves e mobilizações (que cada vez mais sofrem “interditos
proibitórios”); contra militantes da comunicação popular, de rádios
comunitárias e outros meios (expropriados, presos e criminalizados); contra
mulheres que se levantam contra o machismo e o sexismo, dentro de casa e no
espaço público (sobre-violentadas); contra comunidades indígenas, quilombolas,
ribeirinhas e de populações atingidas por enchentes e barragens (vitimadas e
desassistidas); e principalmente contra trabalhadores pobres e negros das
periferias urbanas, aonde se vive há muito tempo um verdadeiro genocídio
classista e racista.
É óbvio
que não somos nós, trabalhadores e trabalhadoras pobres, quem estamos levando a
cabo este verdadeiro projeto de destruição, via exploração das pessoas e dos
recursos naturais do país; é óbvio que o dinheiro de toda esta exploração e de
toda esta destruição não sai de nossas mãos, muito menos volta na forma de
lucro e corrupção para os nossos bolsos; no entanto somos nós quem temos
sofrido, cada vez mais, as violências decorridas deste processo de segregação e
de acumulação sem limites, tendo ainda que sofrer na pele com mais intensidade
os terríveis danos sócio-ambientais de uma elite irresponsável, bem como ser
cada vez mais criminalizado, reprimido e estigmatizado por um Estado e por uma
grande mídia servil aos interesses de seus proprietários e financiadores.
Organização social para eles agora virou sinônimo de “formação de quadrilha”.
Logo eles...
Por isso
tudo é urgente nos solidarizarmos uns aos outros, em nome da democracia e da
liberdade. Neste momento, “somos tod@s Sem Terra” e exigimos a imediata libertação
dos presos e presas políticas do MST. Convocamos também todos os apoiadores
políticos, organizações de direitos humanos e jornalistas comprometidos com a
luta pela reforma agrária e com a luta do povo brasileiro a divulgar amplamente
e acompanhar mais de perto toda esta urgente situação. É preciso que se formem
Núcleos de Denúncia da Criminalização e de Solidariedade entre os Trabalhadores
e Trabalhadoras em cada região. E, assim, deveremos fazer em relação a cada
setor, a cada movimento ou a cada pessoa de nossa classe social que esteja
sendo vítima de violências e abusos semelhantes.