20 anos da queda do Muro de Berlim: a autópsia do stalinismo
Em 9 de novembro completaram-se 20 anos desde a queda do Muro de Berlim. Quando algo, morre a autópsia revela a causa. E isso foi o que se passou em 1989. A queda do muro de Berlim e o colapso dos regimes stalinistas mostraram claramente a natureza daqueles sistemas.
Não houve nenhum ripo de resistência por parte da maioria das pessoas. E tampouco houve alguma resistência por parte da classe trabalhadora organizada, que supostamente deveria sair em defesa de seu "Estado operário".
Isso mostra que os trabalhadores e trabalhadoras não acreditavam que aquele sistema tivesse alguma coisa haver com socialismo ou com um estado de sua classe. Ao contrário, as manifestações de 1989 mostravam claramente as diferenças de classe que existiam em um país supostamente socialista. Slogans como "trabalho manual para os burocratas" e "salário mínimo para o comitê central" podiam ser lidos durante as enormes manifestações na Alemanha Oriental.
Porém, os trabalhadores não foram os únicos a não resistir à queda do regime. Também não houve resistência por parte dos governantes. A mesma classe burocrática que mandava, passou dos escritórios do partido para os escritórios das empresas.
A crise política e econômica na qual estavam imersos os países stalinistas durante a década de 80, estagnados e incapazes de competir com as economias ocidentais, só pode ser explicada se entendermos que não eram países socialistas, senão uma variante determinada de capitalismo: capitalismo de Estado.
A forma do sistema era diferente do capitalismo ocidental, porém a essência era a mesma: exploração da classe trabalhadora para favorecer uma minoria privilegiada e acumular capital para competir, neste caso não entre diferentes empresas, mas entre diferentes estados. Este sistema simplesmente foi substituído por outro capitalismo: o capitalismo de mercado.
A revolução de 1989 e as posteriores transformações nos demais países do leste da Europa fizeram cair a grande mentira defendida pela maioria da esquerda, a de que aqueles países eram socialistas.
Diferente daqueles que pensam que a ex-URSS e os países do Leste Europeu eram socialistas, ainda que minimamente, não devemos ficar desmoralizados pelo colapso do stalinismo e dos países chamados "comunistas". O socialismo não existe sem a ação independente da classe trabalhadora. Não se pode construir o socialismo a partir de cima, nem se pode exportá-lo com exércitos e tanques.
O capitalismo pode existir com ou sem democracia, porém o socialismo, se o entendemos como o controle coletivo da classe trabalhadora, não pode existir sem democracia. A democracia é questão fundamental.
A alternativa do capitalismo de mercado obviamente não significa nenhuma solução. A situação na antiga Alemanha do leste e em muitos países que estavam sob a órbita soviética não tem melhorado durante esses anos. A taxa de desemprego dobrou no antigo lado oriental se comparada com o ocidente da Alemanha. A liberdade pela qual os alemães do leste lutaram durante aqueles dias não é uma realidade na Alemanha de hoje.
Então, devemos perguntar: nós, socialistas e anticapitalistas, devemos celebrar os acontecimentos de 1989?
Sob o ponto de vista da mudança das classes dominantes não há nada a celebrar, nem a lamentar. Porém isso não é tudo. O ciclo de revoluções iniciado na Alemanha em 1989 pôs em relevo a verdadeira natureza dos regimes stalinistas. A história demonstrou que o que caiu não era um sistema socialista, mas simplesmente outra forma de capitalismo.
O stalinismo, que havia dominado grande parte da esquerda durante mais de meio século com o truque de ter um discurso apontando para a esquerda e uma prática de direita, está morto. Isso significa um novo patamar na história para os socialistas, pois permite resgatar o marxismo como teoria e prática para a auto-emancipação da classe trabalhadora internacional.
Apesar do prognóstico de Francis Fukuyama sobre o fim da história e das ideologias, e o triunfo do capitalismo de mercado, não foi por acidente que 10 anos depois da queda do muro nascesse um novo movimento internacional, o movimento anticapitalista. Suas ações têm demonstrado que é possível construirmos uma alternativa ao capitalismo.
Se nossa luta tem de ser contra o capitalismo, tenha a forma que tiver, defender sistemas onde existam classes sociais e exploração não nos ajuda a saber realmente pelo que estamos lutando. E especialmente neste momento de crise econômica e ideológica do capitalismo, é fundamental entender não só contra o que lutamos, mas também saber pelo que lutamos.
É por isso que 20 anos depois da queda do Muro de Berlim, mais do que nunca devemos recuperar a verdadeira tradição do marxismo revolucionário, e deixar claro que não queremos capitalismo de mercado nem capitalismo de estado. Lutamos pelo socialismo internacional.
Tradução: Júlio Dias
FONTE: En Lucha SITE: http://www.enlucha.org PUBLICAÇÃO: 12/11/2009
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