Os comentários de Miguel Urbano
Rodrigues sobre o livro "Stalin-Storia e Critica di una Leggenda
Nera", de Domenico Losurdo, mostram o principal responsável pela
contra-revolução na Rússia como um mal necessário.
Este é um
comentário ao comentário sobre um livro que ainda não chegou ao Brasil.
Trata-se de “Stalin - História e crítica de uma lenda negra”,do marxista
italiano Domenico Losurdo. Por isso, não se refere à obra em si, mas à resenha
escrita por Miguel Urbano Rodrigues, jornalista e veterano militante do PC
português, publicada em http://resistir.info/mur/stalin_losurdo.html.
Com a
pretensão de ser uma avaliação equilibrada do papel histórico de Stalin, o
texto de Urbano é na verdade uma defesa dele. O objetivo do texto parece ser
reabilitar Stalin como um mal necessário. Um ponto de vista que vem sido
defendido muito freqüentemente entre setores de esquerda, inclusive entre os
mais combativos na luta anticapitalista. Tais setores defendem que “um pouco de
stalinismo não faz mal a ninguém”. É como se a ofensiva capitalista e a crise
socialista tivessem sido facilitadas por um certo “liberalismo”, que o ditador
russo não teria permitido.
Uma das
definições mais utilizadas por Urbano em relação a Stalin é a de estadista. E
aí está algo que pode dizer muito sobre o que nosso comentarista entende por
socialismo e comunismo. Ou bem falamos de um estadista ou de um revolucionário.
Um e outro são incompatíveis, segundo o que pensavam Marx, Engels e o próprio
Lênin. O socialismo para aqueles de quem Stalin se considerava sucessor,
deveria ser uma fase de extinção gradual mas firme do Estado. Não um período em
que se formam estadistas. A consolidação do Estado impede a transição
socialista para o comunismo. Jamais a possibilita.
Em
relação a isso, Urbano cita Stalin. O estadista russo considerava que a antiga
função repressiva do Estado fora “substituída pela função de salvaguarda da
propriedade socialista da ação dos ladrões e dos esbanjadores do patrimônio do
povo”. Talvez, o livro de Losurdo traga evidências de que a função repressiva
tenha sido substituída pela de “salvaguarda”. Mas, não é o que indicam as
inúmeras provas históricas de ações violentas cometidas pela burocracia estatal
stalinista. A grande maioria delas, ligada a crimes ideológicos e não contra “a
propriedade socialista”.
Quanto a
esta questão, Urbano afirma que apartir
do início dos anos 30, “Stalin, na sua luta contra a oposição, acusa os seus
membros, globalmente, de ‘agentes do inimigo’. Exagerava”.
Os exageros de Stalin
“Exagerava”,
diz Urbano. Considerar os membros da oposição como agentes do inimigo poderia
até ser exagero. Não fosse o fato de que muitos deles tenham sido mortos. Mas
sobre isso nada é dito. Contentemo-nos, então, com o conceito de “exagero” e o
aproveitemos também para explicar o fato de que praticamente toda a vanguarda
da Revolução Russa tenha sido assassinada a mando de Stalin. Todos traidores.
Urbano
nos diz que o livro de Losurdo apresenta as seguintes opiniões de Stalin em
1925: “hoje não é mais possível dirigir com métodos militares”. E que considerava
um erro “identificar o Partido com o Estado” e repetia que “o socialismo é a
passagem (da fase) em que existe a ditadura do proletariado à sociedade sem Estado”.
Não há porque duvidar de nada disso. Mas, dizer tais frases não impediu de que
fatos posteriores deixassem de confirmá-las totalmente.
Urbano
(ou Losurdo?) atribui tais fatos à decisão de industrializar o país rapidamente.
Uma
“...viragem
estratégica que desencadeou a repressão sobre os camponeses. Cercada por
potências hostis, sem acesso ao capital internacional, a URSS para financiar a
industrialização, recorreu aos excedentes gerados por uma agricultura atrasada.
O projeto da coletivização da terra, pela maneira violenta como foi
concretizado, produziu rasgões não apenas no tecido social como na direção do
Partido. Atingiu o objetivo, mas o preço político e social foi altíssimo”.
Ora,
industrialização acelerada, através da expropriação violenta de camponeses, é
um fenômeno que os marxistas têm pouca dificuldade de explicar. É conhecido por
acumulação capitalista. O fato de que ela foi provocada pelo cerco de
“potências hostis” não altera sua natureza. Nem que tenha sido obra de um
Estado que se dizia socialista.
Segundo
Urbano, em suas Obras Completas,
Stalin afirma que
“... a ditadura do
proletariado teria assumido um caráter muito diferente se a Guerra Mundial,
anunciada com antecedência, não o tivesse encaminhado para uma política de
concentração do poder. Seria sincero ao escrever que a concebeu como
transitória? Nunca o saberemos”.
É
possível que nunca saibamos o quão sinceras eram certas afirmações de Stalin. Já
o fato de que ele tenha chefiado um Estado sanguinário para assegurar uma
industrialização tipicamente capitalista o sabemos perfeitamente. A própria “abundante
documentação” trazida à luz por Losurdo e citada por Urbano pode fornecer as
evidências. Segundo tais documentos Stalin estava convencido de que, após a
derrota de Hitler, uma aliança com os Estados Unidos e a Inglaterra teria
início. E, com ela, uma “era de boas relações com o Ocidente capitalista”.
Marx e
Engels escreveram na Ideologia Alemã
que o capitalismo é um sistema mundial. Por isso, eles e todos os outros
marxistas dignos desse nome jamais recuaram da idéia de que o socialismo
somente se consolidaria mundialmente como resultado de um processo de revolução
permanente e internacional. Derrotar um sistema mundial exige uma luta mundial.
A revolução teria que ser mundial. Do contrário, disseram eles na obra:
“...a privação e a
escassez voltariam a se generalizar e com elas a luta pela sobrevivência
começaria novamente. E toda a antiga porcaria seria necessariamente
restaurada”.
Uma era
de “boas relações com o Ocidente capitalista” só seria possível se estas
relações se mantivessem sob a lógica capitalista. Como de fato se mantiveram. A
terrível situação em que ficou a economia russa depois dos ataques
imperialistas e da guerra civil levaram à “privação e escassez” a que se
referiram Marx e Engels. Junte-se a isso fracasso das revoluções européias que
Lênin e Trotsky consideravam essenciais para a vitória da Revolução Russa.
Estavam reunidas as condições para que “toda a antiga porcaria” se restaurasse.
E se as
esperanças de Stalin na convivência pacífica após a 2ª Guerra foram frustradas,
não foi porque o socialismo avançava em terras russas, mas porque a União
Soviética ficou com uma parte grande demais da partilha mundial para o gosto
dos capitalistas ocidentais.
Socialismo sob a monarquia inglesa
Nosso
comentarista também diz que Stalin “não previa então para a Europa Oriental o
tipo de regimes que ali instalou com mão de ferro”. Que ele preferia para a Polônia,
por exemplo, algo diferente da ditadura do proletariado. E que teria dito a
dirigentes comunistas búlgaros que seria possível realizar o socialismo sem a
ditadura do proletariado. A Tito, teria afirmado: “Nos nossos dias o socialismo
é possível inclusive sob a monarquia inglesa”.
Claro que
tudo isso seria possível, uma vez que se assegurassem formas de dominação que
dispensassem a ditadura aberta. Afinal é assim que funciona a ditadura burguesa
clássica. Ela assume várias formas em várias épocas e lugares. Democracia
liberal nos Estados Unidos, ditaduras militares em países periféricos,
parlamentarismo no velho continente, monarquias, inglesas ou não. As formas
políticas variam, mas a classe no poder, não. Esta é a definição de Marx para a
ditadura burguesa.
Com uma
ditadura de classe em nome do proletariado não seria diferente. O problema é
que uma ditadura do proletariado não poderia assumir outra forma que não a de
uma república radical. Com direito de voto, liberdade de opinião, mandatos
revogáveis. Também foi esta a definição que Marx e Engels deram sobre o que
imaginavam ser o socialismo. Bastante vago, mas muito longe de algo como um
socialismo “sob a monarquia inglesa”.
Mas, nem
mesmo um socialismo sob a monarquia inglesa foi possível. Daí, Stalin não ter
hesitado em usar a boa e velha “mão de ferro”. O “socialismo” foi simplesmente
decretado de baixo para cima na grande maioria da parte leste da Europa que
coube à União Soviética nos despojos da guerra. É como se Marx dissesse
“Proletários do mundo, uni-vos. Eu estou mandando!”.
Causa
espanto o aparente espanto com que Losurdo (ou Urbano?) destaca a popularidade
de que desfrutaria Stalin. “Mesmo durante o biênio do Grande Terror, 37-38, a
base social de apoio à política de Stalin amplia-se”, diz o texto. Hitler,
Mussolini, Franco, Salazar, Vargas e outros ditadores também passaram por
períodos de grande popularidade. Faz parte da dominação de classe que os
debaixo sejam convencidos da justeza do governo dos de cima, mesmo quando estes
usam de métodos sanguinários. Mesmo que as formas de medir a popularidade de
Stalin fossem confiáveis, não provam grande coisa sobre seu compromisso com os interesses históricos dos trabalhadores.
Já quanto
aos famosos campos de concentração soviéticos, o livro de Losurdo recordaria
que neles:
“...havia
bibliotecas para os deportados, e a direção promovia espetáculos, concertos e
conferências e que os prisioneiros em muitos Gulag estavam autorizados a
publicar jornais murais”.
Parece
escapar ao autor (ou autores) que a simples existência de gulags, fossem desumanos ou confortáveis, é vergonhosa e denuncia um
sistema de dominação e não de transição socialista.
Campeonato de maldades
E é neste
momento que a argumentação descamba para uma espécie de campeonato de maldades.
São listados os vários massacres promovidos por governos capitalistas. Do uso
da Austrália como a Sibéria oficial da Inglaterra imperial aos linchamentos de
negros no sul dos Estados Unidos. Churchill, Roosevelt, Patton são
responsabilizados por crimes sangrentos cometidos na África, Ásia, América
Latina.
Tal como
no caso dos campos de concentração não se trata de verificar quem foi mais
bárbaro. Lutar pelo socialismo não significa matar e torturar menos do que os
adversários capitalistas. Marx dizia que a violência era a parteira da
História, não sua mãe. Ela é uma conseqüência da recusa das classes dirigentes em
abrir mão de seus privilégios. Quando se torna uma prática permanente e
sistemática de um Estado, é só mais uma manifestação de que uma classe exerce
seu poder.No caso, não é a classe
trabalhadora.
Ao mesmo
tempo, é estranho que Urbano utilize o testemunho dos mesmos carrascos
capitalistas que acusa para mostrar o prestígio de que desfrutava Stalin junto
a eles.
É assim
que Roosevelt teria tido uma “impressão positiva” de Stalin na Conferência de
Teerã, a ponto de defini-lo como “um estadista de grande talento e cultura”. E Churchill
teria escrito cartas “altamente elogiosas a Stalin”. A quem considerava um dos
mais “dotados estadistas do século 20”. Não ajuda nada a imagem de Stalin citar
tais testemunhos. Ao contrário, dizem muito do que ele realmente era.
Outra
abordagem sintomática sobre as acusações feitas a Stalin é aquela relacionada a
seu anti-semitismo. Diz Urbano que o livro de Losurdo refuta tais acusações, ao
recordar que a União Soviética foi o primeiro país a reconhecer o Estado de
Israel.
Antes de
tudo, ser o primeiro país a reconhecer o Estado de Israel, criado com a
expulsão de 800 mil palestinos,não é
algo lá muito bom. De qualquer maneira,
Urbano diz que a política pró-Israel de Stalin só teria assumido uma orientação
anti-sionista, ao descobrir contatos secretos entre a comunidade hebraica
soviética e autoridades israelenses com o objetivo de estimular a emigração
para Israel dos judeus soviéticos.
Nosso
comentarista parece achar desnecessário explicar o que há de tão grave na
intenção de judeus soviéticos passarem a residir na terra que consideravam ser
sua pátria. Apenas, arremata com uma frase atribuída ao chefe soviético: “Cada
hebreu é um nacionalista, é um agente da espionagem americana”. Como se sabe,
os preconceitos e o racismo nascem e se fortalecem através das generalizações.
Quanto ao
papel da União Soviética nas lutas pela descolonização na África, Ásia e
América Latina, ele realmente foi importante. Porém, nada mais foi que o
resultado das iniciativas de um Estado na condição de jogador mundial. Tratando
cada luta por libertação nacional como oportunidade para ganhar terreno no
tabuleiro global. Na grande maioria das vezes, as relações estabelecidas entre
a potência soviética e as sociedades descolonizadas foram as de dependência
comercial, tecnológica, militar. Era a clássica independência política
combinada com dependência econômica.
O fato é que
a política exterior soviética buscava subordinar aos interesses da “pátria
russa” todos os movimentos e partidos nos demais países. Nem que isso
significasse frear ou liquidar tais movimentos. O nome disso é geopolítica, não
internacionalismo proletário.
Gêmeo de Hitler?
Finalmente,
quanto ao erro em tratar Stalin e Hitler como “monstros gêmeos”, Urbano tem
toda razão. São figuras históricas muito diferentes. Nem que seja por uma razão
muito prática. Quem se aproxima de um partido de esquerda, mesmo que este
defenda o terror stalinista, o faz na grande maioria das vezes por acreditar na
necessidade de lutar por justiça e igualdade sociais. É alguém com quem se pode
debater o terrível erro de justificar as ações de Stalin. Já quem tem simpatia
por partidos nazistas é movido por ódios racistas e valores elitistas. Uma
pessoa assim dificilmente pode ser convertida para a luta socialista.
Mas, não
se trata somente disso. O militante português diz que:
“Stalin foi um
revolucionário que liderou a luta épica da União Soviética contra a barbárie
nazi. Por si só esse combate em defesa do seu povo e da humanidade garante-lhe
um lugar no panteão da História”.
Que a
resistência soviética tenha sido decisiva para a derrota de Hitler não se
coloca em dúvida. Mas não porque o chefe do Exército Vermelho tenha sido um revolucionário.
Ao contrário. A vitória dos soldados russos aconteceu apesar da total
incompetência de seu comandante. Ou melhor, estadista.
Ao falar
em “monstros gêmeos”, Urbano deveria recordar dois fatos. Em primeiro lugar, a
disposição com que Stalin fez um pacto de não agressão com Hitler. O objetivo
seria impedir uma agressão alemã à “Pátria do Socialismo”. Na verdade, um erro
monumental. Hitler jogava com a rivalidade dos estadistas do dois lados.
Inglaterra e França torciam para que ele se voltasse apenas contra a União
Soviética. E Stalin esperava que o estadista alemão atacasse somente as duas
potências européias. Enquanto uns e outros pensavam usar Hitler, este avançava
com suas tropas. Até as vésperas do ataque alemão à Rússia, provisões soviéticas
continuavam a abastecer a economia alemã. Os avisos de que tropas alemãs se
concentravam na fronteira russa foram solenemente ignoradas até que começou a
invasão. Milhões de russos foram mortos graças ao gênio estratégico do
estadista soviético.
E ainda falando
em monstros gêmeos, lembremos o tratamento que Stalin dispensou aos
social-democratas e socialistas europeus nas décadas de 20 e 30. Segundo ele,
tratava-se de social-fascistas que deveriam ser combatidos tanto quanto os
nazistas. Seriam farinha do mesmo saco. Sob tal orientação, o PC alemão chegou
a se juntar a militantes nazistas para cometer atos violentos em manifestações
e comícios de socialistas. Enquanto isso, Trotsky propunha uma aliança entre comunistas
e social-democratas contra o nazismo.
Com
semelhantes orientações, Stalin ajudou a chocar o ovo da serpente nazista. Com
tantos erros acumulados no combate ao nazismo, fica difícil tirar de Stalin a
fama de ter partilhado com Hitler o mesmo útero.
As
intenções de Urbano e Losurdo parecem ser as melhores. Eles realmente têm razão
quando dizem ser errado demonizar Stalin. O problema é que demonizar Stalin
interessa à direita, exatamente porque Stalin nos fez o péssimo serviço de
transformar a ditadura estatal soviética em sinônimo de comunismo ou de
socialismo. Querer manter de algum modo a ligação entre Stalin e a luta pela
revolução socialista é continuar a fazer o jogo que interessa à burguesia. Esta,
sim, deveria acolher Stalin em seu “panteão”.
Por outro
lado, aos revolucionários cabe debater o que foi a formação social soviética. Como
a Revolução Russa foi derrotada. Por que a transição ao socialismo jamais
poderia ter chegado ao seu término em um só país. E, sem dúvida, o papel
terrível desempenhado por Stalin em todo esse processo. Não como demônio, mas
exatamente no papel do estadista que Urbano procura valorizar. Um estadista com
seu compromisso de manter em funcionamento uma máquina de dominação, cuja principal
função era manter o sistema de exploração econômica.
Para
começarmos a entender a União Soviética temos que usar categorias marxistas. E
quando as utilizamos, é muito difícil negar a continuidade da lei do valor na
União Soviética. O caráter capitalista de sua economia, ainda que sob o
controle burocrático e centralizado do Estado. Por outro lado, também temos que
fazer uso do acúmulo marxista sobre dominação, para negar qualquer
possibilidade de que o que aconteceu na União Soviética sob Stalin possa nos
servir de modelo. Mas, este é um tema que fica para outro momento.