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Rui Kureda
Nos dias de hoje praticamente
todos, incluindo políticos de direita e empresas conhecidas por suas práticas
destrutivas, afirmam defender o meio ambiente. Isso reflete, além de uma grande
dose de hipocrisia, o fato de que já se tornou senso comum a constatação de que
o planeta está em perigo. Assim, governos, instituições financeiras como o
Banco Mundial, além de grandes corporações, tentam demonstrar seu compromisso
com investimentos voltados para amenizar a destruição ambiental.
A idéia que todos eles defendem
atende pelo nome de “desenvolvimento sustentável”, que se refere um
desenvolvimento capaz de prover “as necessidades da geração atual, sem
comprometer a capacidade de atender as necessidades das futuras gerações. Essa
idéia é praticamente aceita por todos, e com base nela se realizam ações envolvendo
governantes, capitalistas e ONGs ambientalistas, unidos em torno da defesa do
meio ambiente. Mas essa definição é vaga, pois não está claro o que significa
‘desenvolvimento’ e que são essas “necessidades”. Além disso, tampouco nos diz
como atingir tal objetivo.
Praticamente a sua idéia
central, e expressa de maneira bastante clara, é a necessidade de uma
utilização racional dos “recursos naturais”, que permita a manutenção do atual
sistema econômico de uma forma ambientalmente equilibrada. Não há nada que se
refira à necessidade de uma mudança ou transformação da realidade. E é por isso
que essa noção pode ser incorporada ao universo de preocupações do capital,
pois expressa a necessidade de impedir o esgotamento da sua fonte de matérias
primas necessário para a produção de mercadorias e para expansão permanente de
mercados.
A
crítica de Leonardo Boff
O teólogo Leonardo Boff afirma
que o próprio conceito é uma contradição em termos, pois “a categoria
‘desenvolvimento’ provém da área da economia dominante”, obedecendo “à lógica
férrea da maximalização dos benefícios com a minimalização dos custos e do
tempo empregado.” Já o termo ‘sustentabilidade’ “provém do âmbito da biologia e
da ecologia, cuja lógica é contrária àquela deste tipo de ‘desenvolvimento’.
Por ela se sinaliza a tendência dos ecossistemas ao equilíbrio dinâmico e se
enfatizam as interdependências de todos, garantindo a inclusão de cada ser, até
dos mais fracos”.
É também um equívoco, pois
afirma “como causa aquilo que é efeito”. Portanto, “a utilização política da
expressão "desenvolvimento sustentável" representa uma armadilha do
sistema: assume os termos da ecologia (sustentabilidade) para esvaziá-los e
assim mascara a verdadeira causa do problema social e ecológico (tipo de
desenvolvimento) que ele mesmo é.”
O teólogo denuncia o caráter
ilusório do conceito, uma vez que postula um desenvolvimento “que se move entre
dois infinitos: o infinito dos recursos da Terra e o infinito do futuro. A
Terra seria inesgotável em seus recursos. E o futuro para frente, ilimitado.
Ora, os dois infinitos são ilusórios: os recursos são finitos e o futuro é
limitado, por não ser universalizável”.
A essas observações, caberia
também apontar o fato de que o conceito não aponta as raízes reais da devastação
ambiental, ao remeter a discussão apenas para o plano da racionalização da
apropriação dos recursos naturais, sem levar em conta que um sistema baseado na
expansão contínua do capital é completamente desprovido de qualquer
racionalidade. Podemos dizer que o ‘desenvolvimento sustentável’ é a grande
utopia do capital. Mas uma utopia que não pode ser realizada, pelo simples fato
de que a ordem do capital é a negação da sustentabilidade ambiental.
As
políticas insustentáveis do ‘desenvolvimento sustentável’
Mas esse debate não é apenas
teórico, pois a sua adoção determina tanto políticas
governamentais quanto as ações
e propostas da chamada ‘sociedade civil’, com impactos sobre o meio ambiente e
a sociedade. É essa a política que tem sido implementada pelo governo Lula e
pelo Ministério do Meio Ambiente. Os exemplos são muitos: licitação de
florestas públicas para exploração comercial “sustentável”, o “manejo
sustentável das florestas”, Plano Amazônia Sustentável, a política de
licenciamento ambiental e as inúmeras Parcerias Público-Privadas, entre outros.
Infelizmente, o conceito vem
ganhando força na sociedade. Muitas ONGs, movimentos sociais e organizações de
esquerda embarcaram na ilusão de conciliar sustentabilidade ambiental e
“desenvolvimento” capitalista. Com isso rebaixa-se a luta ambiental ao nível do
conservacionismo e da política de mitigação de impactos.
Devemos, sim lutar para atenuar
impactos. Devemos lutar pela conservação e preservação da natureza. Mas não
como finalidades em si mesmas. São lutas imediatas de grande importância, mas
são momentos de resistência que se somam a uma luta mais ampla de atingir uma
sociedade realmente sustentável que só poderá se tornar realidade quando
colocarmos uma pá de cal sobre este sistema predatório baseado na exploração do
trabalho pelo capital.
Rui Polly |