Em maio, Obama
defendeu a criação de um Estado palestino. O primeiro-ministro de Israel,
Benjamin Netanyahu, admitiu a possibilidade. Mas, quer um Estado palestino sem
exército e proibido de fazer alianças com o Irã ou com o Hezbollah.
Em maio, Barack
Obama, presidente dos Estados Unidos, defendeu em uma reunião com o
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a proposta de criação de um
Estado palestino. Declarou seu engajamento pessoal para concretizá-la. A
ofensiva do governo norte-americano desde então tem surtido efeito. Além da
União Européia, a Liga das Nações Árabes e a Autoridade Nacional Palestina
(ANP) declararam seu apoio à proposta. Ismail Haniyeh, líder do governo do
Hamas em Gaza, declarou que “se existe um projeto realista para resolver a
causa palestina com o estabelecimento de um Estado nos territórios ocupados em
1967 e com plena soberania, apoiaremos”. E, finalmente, o próprio Netanyahu
assumiu no mês de junho a possibilidade de construção de um Estado palestino.
Mas enquanto os
palestinos exigem plena soberania, para Israel o Estado palestino deve ser
desmilitarizado, sem controle do espaço aéreo, e proibido de estabelecer
alianças com o Irã ou com o Hezbollah.
Apesar de posições
tão antagônicas, o que não se pode negar é que Obama tem conseguido avançar na
construção de um consenso em torno da proposta de criação de um Estado
palestino, também conhecido como o princípio de “dois Estados para dois povos”.
Consolidado o consenso, as negociações formais teriam início, até se chegar
eventualmente a uma posição comum. Não é possível afirmar se os EUA conseguirão
costurar o consenso para que as negociações tenham início. Em particular,
precisarão convencer Israel de suspender a colonização na Cisjordânia. Mas o
fato é que há uma forte ofensiva política articulada para que o processo de
negociações tenha início.
Se isso ocorrer,
independente dos desdobramentos seguintes, significará o abandono da proposta
de um único Estado, laico e democrático, abrigando judeus e palestinos, que
abrangesse o território integral da Palestina histórica. Consolidaria a mudança
de posição que teve início no início dos anos 1990, quando a OLP decidiu
participar das negociações que culminaram na assinatura do trágico Acordo de
Oslo em 1993.
A quem serve a proposta
Mesmo assumindo a
hipótese, altamente improvável, de que o estado palestino fosse criado no
território anterior às anexações de 1967, ele surgiria em condições
absolutamente desfavoráveis. Do ponto de vista econômico, dificilmente o novo
Estado poderia desenvolver-se na escala e velocidade necessárias para garantir
suas necessidades. Já Israel conta com uma economia estruturada, além dos
subsídios fornecidos pelos seus aliados norte-americanos que foram cruciais
para a sua existência.
No plano militar, a
correlação de forças não seria muito diferente da atual, pois além de Israel
ser uma das maiores potências militares do mundo, os EUA e Israel não aceitarão
um Estado palestino que desenvolva livremente seu poderio militar. E, em caso de
um conflito militar, Israel conta ainda com o apoio militar dos EUA, a maior
potência militar do planeta.
Há também outras
questões importantes, como o controle sobre recursos naturais existentes nas
áreas ocupadas após 1967, como é especialmente o caso dos recursos hídricos.
Finalmente, uma
coexistência pacífica entre os dois Estados seria impossível enquanto
persistisse a existência do Estado sionista de Israel. Os sionistas têm
mostrado reiteradamente, com a brutalidade de suas ações militares, um ódio
racista que mal esconde o desejo de exterminar o povo palestino. As imagens do
recente massacre ainda estão bem vivas.
A política de Obama
A idéia de que seja
a única solução capaz de garantir a paz, esconde o fato de que o Estado de
Israel se formou ao longo de seis décadas de gradual genocídio contra o povo
palestino, pela usurpação permanente de territórios através da expulsão de
milhões de palestinos de suas terras, com o aval e apoio decisivo dos EUA e
demais potências imperialistas.
Muitos vêem Obama
como um político progressista e democrático. A sua retórica contribui para
alimentar essa ilusão, como o seu discurso em Cairo em junho passado. Obama é
diferente de Bush, mas ao seu modo vem defendendo, na condição de presidente,
os interesses do imperialismo norte-americano. Assim, ao mesmo tempo em que faz
belos discursos pela paz, aprofunda a intervenção militar no Afeganistão.
O compromisso de
Obama com a criação do Estado palestino é coerente com essa política. É uma
resposta à situação política desfavorável na região. O ataque sionista à Faixa
de Gaza chocou o mundo inteiro, desencadeando grandes protestos e manifestações
contra Israel. E obrigando os governos árabes, em geral servis aos EUA, a
condenar a agressão israelense, acuados pela revolta das populações do mundo
árabe.
Obama quer
estabilidade política no Oriente Médio, para assegurar os interesses
norte-americanos. Assim, o papel dos EUA em eventuais negociações, não se
limitará à mediação, mas fará prevalecer o peso dos interesses imperiais no
novo mapa que vislumbram para a Palestina e o Oriente Médio. Isso significa que
não permitirão um Estado palestino econômica, política e militarmente soberano,
que ameace Israel e gere mais instabilidade e tensões em uma região marcada
historicamente por turbulências, guerras e revoluções. E, crucialmente,
significa também que qualquer resultado deverá manter o papel de Israel como
cão de guarda de seus interesses na região.
As atuais tensões
entre EUA e Israel não expressam antagonismo de interesses ou projetos, mas sim
divergências táticas e de métodos. Quaisquer pressões dos EUA por concessões de
Israel nas negociações terão como objetivo garantir que o Estado palestino não
seja um simples bolsão de apartheid, para assegurar um resultado minimamente
honroso para as organizações que estarão representando o povo palestino.
Tiro no pé
Uma participação
palestina nas negociações é, portanto, um tiro no pé. O palco das negociações
será foco de uma enorme pressão política para que se chegue a um acordo. E
lembremos que qualquer negociação implica concessões das partes envolvidas.
Neste caso, para Israel significa abdicar de algumas das suas “conquistas” que,
na verdade, foram produtos de simples usurpação. Mas quanto aos palestinos a
primeira e maior concessão será o reconhecimento e a legitimação do Estado
sionista que surgiu e se fortaleceu graças à sua destruição, ao seu
enfraquecimento e à expatriação e assassinato de milhões de mulheres e homens.
Essa concessão é, na verdade, um pressuposto para que a própria negociação
ocorra. Quanto às concessões posteriores, os representantes palestinos terão
que decidir quais usurpações e atos de agressão sionistas estão dispostos a
legitimar.
Participar de tal
processo equivale a entrar voluntariamente na jaula do leão.
Um só Estado
A única política que
pode garantir a paz é a criação de um único Estado laico e democrático, em toda
a área da Palestina histórica, onde conviveriam palestinos e judeus. Esta é uma
bandeira histórica do povo palestino, que foi abandonada no início dos anos
1990, quando a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) iniciou as
negociações com Israel que culminaram no trágico Acordo de Oslo em 1993. Yasser
Arafat, então presidente da OLP, reconheceu o Estado de Israel em uma carta
oficial enviada ao primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin.
Muitos dizem que é
uma proposta inviável, mas é fato que palestinos e judeus conviveram na
Palestina antes da fundação do Estado de Israel e da expulsão de cerca de 900
mil palestinos de suas terras. Durante décadas, a minoria de judeus (cerca de
15 mil) viveram na Palestina sem sofrer ataques ou perseguição. Hoje essa
solução requer a derrota do sionismo e, portanto, do Estado terrorista de
Israel.
É hora, portanto, de
retomar essa bandeira e lutar por ela. E lembrar as valiosas lições do acordo
de Oslo que enfraqueceram a luta do povo palestino e fortaleceram o sionismo.